PALAVRA DO PRESIDENTE

NATAL

Quando falamos de natal, vêm à nossa lembrança alguns personagens bíblicos, como José, Maria, Izabel, Zacarias, Simeão, Ana, os magos, os pastores, os escribas, e outros tantos, mas nessa linha, nos deparamos com os textos marginais da escritura sobre esse assunto, porque os textos chamados natalinos são todos marginais e revolucionários, por natureza.

José dá um pontapé no machismo, e aceita sua mulher grávida, mesmo sem poder explicar para ninguém a gravidez dela e mesmo preocupado se alguém viesse a saber disso, e foge, aceitando o testemunho de um anjo, e, para piorar o álibi, que tinha sido dado apenas a ele na efêmera subjetividade de um sonho. José torna-se um ser social inferior, um fora da lei. Deflagra as chamas da mudança cultural e social no conceito de honra.

Os magos do oriente, não se sabe quantos, nem se eram reis, chegam segundo a Ordem de Melquizedeque, pois, sem terem nada a ver com a genealogia de Abraão, seguem uma estrela que anda no interior deles, e, caminhando nessa simplicidade discernem aquilo que os teólogos de Jerusalém só sabiam como “estudo bíblico”. Os que tinham a Escritura (os escribas), não tinham a revelação. E quem nada sabia da Escritura tinha sabido o necessário acerca do verbo pela via da revelação. Uns sabiam o endereço: “Em Belém da Judéia...”, mas não tomaram a iniciativa de ir até lá... aprisionados que estavam à concepção de que conhecer a história leva alguém aonde se quiser chegar. Já os que inquiriam (os magos), estavam na estrada... caminhando... e são eles os que descobrem onde Jesus morava. Eles dão testemunho do poder inigualável do Evangelho na vida de qualquer pessoa da Terra que acredita. Esta é a dimensão do evangelho, do poder supra religioso, segundo a Ordem de Melquizedeque.

Isabel, já fora do tempo, tarde demais para quase todas as mulheres, dá a luz um filho e, numa culpa por desconfiança apenas, seu velho marido é proibido de contar a notícia, de dar nome ao filho antes da hora, pois fica sem fala. É o estrelato dos inférteis e mudos. O rei dos judeus não tem um bom hospital a acolhê-lo, não tem onde hospedar-se. Esta é a contradição entre os poderes, o terreno e o divino!

Pastores naquela noite, de plantão, devido ao osso do ofício, são visitados por miríades celestiais e intitulados “aqueles a quem Ele quer bem”. É a revolução do Céu!

Os estudiosos, os sacerdotes, os sábios de Jerusalém não reconhecem o Messias, o Salvador de Israel quando seus pais o levam ao templo para a cerimônia de circuncisão, mas apenas uma profetiza velha e um ancião sem significado religioso. A revelação não sabe os nomes dos sacerdotes!

Tudo isto me leva a crer que, a começar da Encarnação do verbo, passando pelas liturgias de cumprimento da lei, o Natal, o nascimento, todo o Evangelho é para aqueles que não se esperava que fossem compreendê-lo, é para aqueles que são discriminados, marginalizados, informalizados, separados, longe da oficialidade. A revelação é quase sempre marginal!

O Natal, o maior ato divino não acontece em um Palácio, porém em uma choça, em um caluje, em uma estrebaria. E a voz mais carinhosa do natal é a voz da virgem, da Maria simples, e que troveja a justiça de Deus sobre as nações. Ela é quem anuncia a grande revolta contra a ordem social, política e econômica estabelecida, vigente. E faz isto com numa melodia, numa canção, com poesia e voz.

Escrevo isto também para os que hoje se sentem afastados das oficialidades religiosas de nosso tempo, para aqueles que ainda carregam a dor de se sentirem afastados. Deus não é da oficialidade, não é oficial. A vida não é oficial. O amor não é oficial. A graça de Deus é sempre subversão e marginalidade. Na oficialidade estão os tribunais onde são feitos os julgamentos e sentenciados os informais. Na informalidade explode a vida.

Abra seu coração e siga a resplandecente estrela da manhã, como fizeram os magos. Seja honesto como José. Determinado com Maria. Piedoso como a estéril Isabel. Seguro como o mudo Zacarias. Convicto como os pastores que são despertados nos campos da vida, pelo cantar de anjos em sinfonia celeste. Visionário que possa conhecer o salvador numa criança comum, embora seja apenas a palavra de um velho, cuja única coisa que ainda faz é ir ao templo, anonimamente, todos os dias, como Simeão; ou uma beata, viúva e idosa como Ana, cujo sonho era tornar-se embaixatriz da mensagem de que “o Messias chegou”, mesmo que fosse apenas para Jerusalém.

Nas narrativas do natal nas Escrituras, Deus vai até às pessoas, e as pessoas vão até Deus, numa via de mão dupla e isto é a confirmação de que em Jesus, os homens são reconciliados com Deus. Assim, não existem excluídos, pois nestes dias, Deus continua enviando corais de vozes divinas, e nos ajudando a compreender a trajetória da estrela, e nos fazendo completos com a Graça infinita, iniciada no presépio e concluída no calvário, capaz de alcançar a todos os homens, em todos os tempos. No Natal Jesus é a alegria de todos! Eu e você estamos incluídos aqui. Feliz Natal!!!!

 

(Interpretação do Pr. Paulo Martins – Dezembro de 2018).

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